Wednesday, October 01, 2014


assim, esta série não passa de uma desastrosa reunião de momentos solitários e extremamente íntimos e de má sorte expostos sem ressentimentos. enquanto o tráfego começa a mover suas engrenagens. enquanto os coletivos freiam e rangem como lesmas hesitantes na banguela da Cardeal. a vizinha se apronta para chegar à tempo no emprego no hospital. a luz da cozinha muda, as sombras diminuem no assoalho. enquanto tudo nasce eu canto na cozinha com uma caneta cravada num pedaço de papel. minhas costas estão completamente empenadas e na minha frente algo encharcado de tinta está estirado entre meus braços, frascos de aguada, pinceis, garrafas vazias e um cinzeiro transbordando. algo expelido num momento solitário e que está ali para me alertar que outra manhã imunda me aguarda.

Saturday, September 27, 2014


por aí com pinta de fugitivo de hospício. tava apenas pensando no disco novo daquela banda de frisco e nos nomes dos remédios que a gente era apaixonado. juro que não percebi que era mesmo você parada ali na calçada. a cidade toda molhada e brilhando como uma viagem atormentada de ácido. você e os pingos flutuando através da luz elétrica. seu vestido balaçando como uma bandeira branca na borda de uma trincheira. É solitário por esses lados, você me disse. vamos dar uma volta. vamos até aquele bar. onde sempre tem alguém chorando no balcão. aquela paródia de purgatório. onde os cachorros do inferno estraçalham o lixo dos banheiros. eu sei que eu nunca vou conseguir superar a perda da frágil segurança da minha solidão. seus drinques de veneno. seus dentes de leite. seus tênis rabiscados. ri quando você me falou que aquele senhor balança as pernas como uma galinha antes de cagar. caminhamos madrugada adentro num silêncio flamejante. pessoas gritavam das janelas dos edifícios invadidos. foi só quando passamos por baixo do viaduto, sob um intenso brilho vermelho, que eu percebi as lágrimas. um banho de lágrimas encharcando seu rosto com toda a tristeza que existe. as ruas não pareciam nada bem. elas nunca parecem. por isso voltamos sempre para aquele lugar.

Tuesday, March 04, 2014

terminei de ler a biografia do Syd Barrett e, em certo momento da madrugada, eu entrei no UOL e me deparei com uma enxurrada de subcelebridades com dentes de mentex e roupas brilhantes e axilas aparentes e então eu achei melhor colocar as músicas do Madcap e me senti sendo digerido pelo intestino de um cachorro andando perdido em St. Margareth Square e a ideia de ficar em casa sozinho à noite pra sempre nunca me pareceu tão atraente.

Thursday, December 26, 2013

cadeira

deixei spdrama pra trás no começo da madrugada de ontem. a fernão dias escontrava-se movimentada e fluindo como um multiball numa máquina da pinball. caminhonetes e palios surgiam ao redor da minha barca, que tem som estéreo agora, e meus ouvidos estão zunindo como uma pancada num nervo. percebo isso deitado com o peito cheio de catarro na cama do sítio; a janela escancarada por onde entra a luz do sol matutino e as moscas graúdas e ruidosas que brotam no riacho que corre ao lado. estou me procurando nesse primeiro dia de estrada. estava tão ansioso pra isso que hoje acordei aqui na divisa de estado SP/MG e me senti extremamente melancólico. o trajeto de carro ontem foi realmente muito curto. sequer tive certeza que estava mesmo numa BR. tudo ao redor de são paulo ainda parece são paulo. você precisa rodar pelo menos 300km para estar livre da teia da cidade monstra. minha insatisfação com a decadência e o obscurecimento do meu espírito já vinha me atormentando desde a metade do ano. a vontade de cair fora começou a incomodar com uma paranóia. eu vou cair fora, eu pensava todo dia enquanto voltava pra casa transtornado no começo da manhã. Ficar longe durante um breve período para procurar algo que eu nem mesmo sei se ainda existe. esfregar toda sujeira que está incrustada em minha alma. anúncios de outros mundos. Alguns chamam isso de férias. Tá mais pra trégua, distanciamento voluntário. Não sei se preciso enfrentar algo ou me tornar um fugitivo das trevas interiores, à vontade para tomar decisões arriscadas. Quero mais é que tudo se foda lentamente. Tenho apenas a certeza que preciso atravessar estradas secundárias através do nordeste árido brasileiro, onde as árvores são mortas e o asfalto esfarela como uma casca ressequida, até chegar a porra do litoral, onde eu possa me refestelar com muita muita coisa da pesada. Porque a vida deve ser da pesada. a estrada. Um lugar onde eu posso me tornar uma pessoa pior por opção, não por uma necessidade intoxicante. Um lugar sob um céu bravo e o vento que sopra a favor. Onde os caminhões soam como o arroto de deuses. Uma rota com curvas ameaçadoras. Uma música alta nos falantes. Pra depois fugir de novo com meu pé de chumbo no acelerador e um cigarro na canhota. Deixo o mundo me esquecer um pouco. Sei que existe um destino me esperando, mas eu não me importo, pois eu minto, como agora, e eu mudo de planos em qualquer encruzilhada. Quero apenas enfrentar a estrada, o incógnito, a solidão onde começa a vida e onde surge a morte. Eu volto depois. Ou não.

Friday, September 20, 2013

a conta

Um prato cheio de sangue. O mapa de carne crua num planeta de louça branca. Os dentes que dilaceram a fúria de estar com uma garota aprisionada na tela do celular. A valsa solitária do garçom. O tilintar oco submerso de talheres mal afiados. O uivo silencioso do animal morto com uma toalha no colo. Alimento com espinhas que matam o que alimenta.

Monday, September 16, 2013

caixa de sapatos #31

me interesso em saber o número de vítimas de uma tragédia. gosto de ver os familiares de pijamas e suas fotografias em alta resolução com olhos vermelhos e suas bocarras murchas e suas obturações. prefiro celebridades que ganham peso após embucharem. gosto de saber sobre acidentes de trânsito fatais. gosto de ver as fotos. rebeliões em presídios com reféns decapitados e colchões em chamas. gosto do incêndio e suas labaredas. o cheiro de cabelo queimado. acidentes de avião. gosto de ver notícias sobre pessoas sendo enxotadas de suas casas na espanha. tiroteios em escolas primàrias. me lambuso de prazer quando algum atleta mata sua namorada por ciúme. não me reconheço de tanta alegria com atropelamentos e suicídios. velhos esquecidos em bancos de praça. rio dos alertas do dr. dráuzio varela. assisto assassinatos. programas evangélicos com pastores milionários rindo e gesticulando para um bando de fiéis que pedem para levar em seus roscofes sagrados. chacinas em bodegas de periferia. blitz efetivas. coletivos carbonizados. fartura na cracolândia. violência e misérias. doenças venéreas. rios entupidos de merda e produtos químicos e pneus. visualizo sua mãe de quatro cheia de varizes e manias de excesso de realidade e ansiolíticos e fico de pau duro. ataques do coração durante anestesias em clínicas de lipoaspiração. nada me diverte mais do que ver os outros se foderem com tacos e crânios esmagados em estádios de futebol. cachorros de celebridades mortos. famílias desestruturadas. deslizamentos e enchentes. falta de vagas em hospitais. comerciais da tim e da brahma com gente bonita e depilada definitivamente. tombos e estabacos. espancamentos desleais e tortura. agressões homofóbicas na avenida paulista. travestis desfigurados e prostitutas infectadas espalhando vírus. claudia leite. ciclistas de capacete impressos no asfalto. silicones que explodem em silêncio. políticos de terno no verão achando tudo normal. gente legal que não dá certo. germes e berrugas protuberantes. pombos aleijados. cheiro de mijo nas ruas. aguardo ansiosamente por acidentes. sangue fresco. venero a morte. gosto de me imaginar flutuando nela de braços abertos num córrego canalizado. a glória de hoje é assistir à derrota. que se foda bastante e que minhas palmas soem como uma tempestade de granizo num telhado de amianto.

Tuesday, September 03, 2013

any way you choose me we won't be long

"Você sabia como eu me sentia quando fechava a porta do quarto num domingo qualquer. Quando o tempo escorria e girava na sala com o televisor ligado no programa razoável da emissora mor. Enquanto vocês riam do apresentador e suas tiradas. Você sabia como eu me suportava. Eu sou você com outro nome. Até os 14 anos eu me esforcei para ser a pessoa mais desprezível daquele terreno baldio. Ali ninguém me viu dormir encolhido como um pacote numa sombra. Mas você percebia através da sua indiferença que eu morria devagar. Descobri substâncias que acalentavam a minha fúria de existir em lugares onde não deveria estar. Talvez isso fosse um alívio pra você. Eu e meu chiado asmático desafinado. Meu grito inflamável entupido através da noite, esperando pelo seu colo na escada de concreto de escola estadual Eu nunca dormi, mãe. Sempre esperei teu amparo. Eu vi você ir embora. Sempre tive medo e vergonha de admitir ser o que eu sou. O cansaço sempre foi meu estado natural. Meu vício. Uma maneira de me gastar mais depressa para desaparecer antes. Sozinho em tardes secas. Todas as vezes que eu praguejava seu nome em manhãs cinzas eu gritava de pavor. Todas as vezes que eu fugia e procurava amigos que não existiam era uma forma de tentar te encontrar. O desespero pueril de apagar antes de explodir. Eu andava por aí apalpando muros rebocados. Eu sabia no que você pensava: em nada. Éramos tão estranhos. Mas você se vingava. Eu não te conheço apesar de ter sido cuspido do seu ventre. Fui esfregado no cascalho apenas para escutar à verdade de ter sido um acidente que insistia em continuar acontecendo. Eu ainda posso sentir o cheiro daquelas manhãs. Quando ficar na fila da matrícula era algo para ser lamentado em almoços e almoços e almoços. Como deve ter sido difícil. Conceber algo que deveria ter sido expectorado. Uma farsa. Placenta de plástico. Uma charada. Uma vergonha. O garoto nada. Que roubava da sua própria carteira. Que atrapalhava o sossego de quem chegava cansado em casa. De quem chegava em casa. Eu sentia muito medo de quem chegava em casa e vinha em minha direção. Ao contrário dos seus cachorros dóceis, eu não fazia festa quando você chegava em casa. Eu esperava seu vacilo para te roubar. Eu sou um monte de raiva. Um sujeito que usa o amor como se assoasse o nariz num guardanapo transparente de televisão de boteco. Que se apega ao desespero apenas para estilhaçar tudo no final. Eu sou a pessoa que odeia fazer as coisas que gosta. Eu sou a coisa. Que nasceu e cresceu e agora derrete e se olha no reflexo das coisas brilham e se lembra de tudo. Da ausência. Eu sinto esse frio de quem rouba e escapa e que fica drogado e cheio de febre sexual e já não tem mais medo e que não vai mais voltar pra casa e que vai morrer sozinho com os dentes intactos" Lou Barry