Tuesday, March 04, 2014

terminei de ler a biografia do Syd Barrett e, em certo momento da madrugada, eu entrei no UOL e me deparei com uma enxurrada de subcelebridades com dentes de mentex e roupas brilhantes e axilas aparentes e então eu achei melhor colocar as músicas do Madcap e me senti sendo digerido pelo intestino de um cachorro andando perdido em St. Margareth Square e a ideia de ficar em casa sozinho à noite pra sempre nunca me pareceu tão atraente.

Thursday, December 26, 2013

cadeira

deixei spdrama pra trás no começo da madrugada de ontem. a fernão dias escontrava-se movimentada e fluindo como um multiball numa máquina da pinball. caminhonetes e palios surgiam ao redor da minha barca, que tem som estéreo agora, e meus ouvidos estão zunindo como uma pancada num nervo. percebo isso deitado com o peito cheio de catarro na cama do sítio; a janela escancarada por onde entra a luz do sol matutino e as moscas graúdas e ruidosas que brotam no riacho que corre ao lado. estou me procurando nesse primeiro dia de estrada. estava tão ansioso pra isso que hoje acordei aqui na divisa de estado SP/MG e me senti extremamente melancólico. o trajeto de carro ontem foi realmente muito curto. sequer tive certeza que estava mesmo numa BR. tudo ao redor de são paulo ainda parece são paulo. você precisa rodar pelo menos 300km para estar livre da teia da cidade monstra. minha insatisfação com a decadência e o obscurecimento do meu espírito já vinha me atormentando desde a metade do ano. a vontade de cair fora começou a incomodar com uma paranóia. eu vou cair fora, eu pensava todo dia enquanto voltava pra casa transtornado no começo da manhã. Ficar longe durante um breve período para procurar algo que eu nem mesmo sei se ainda existe. esfregar toda sujeira que está incrustada em minha alma. anúncios de outros mundos. Alguns chamam isso de férias. Tá mais pra trégua, distanciamento voluntário. Não sei se preciso enfrentar algo ou me tornar um fugitivo das trevas interiores, à vontade para tomar decisões arriscadas. Quero mais é que tudo se foda lentamente. Tenho apenas a certeza que preciso atravessar estradas secundárias através do nordeste árido brasileiro, onde as árvores são mortas e o asfalto esfarela como uma casca ressequida, até chegar a porra do litoral, onde eu possa me refestelar com muita muita coisa da pesada. Porque a vida deve ser da pesada. a estrada. Um lugar onde eu posso me tornar uma pessoa pior por opção, não por uma necessidade intoxicante. Um lugar sob um céu bravo e o vento que sopra a favor. Onde os caminhões soam como o arroto de deuses. Uma rota com curvas ameaçadoras. Uma música alta nos falantes. Pra depois fugir de novo com meu pé de chumbo no acelerador e um cigarro na canhota. Deixo o mundo me esquecer um pouco. Sei que existe um destino me esperando, mas eu não me importo, pois eu minto, como agora, e eu mudo de planos em qualquer encruzilhada. Quero apenas enfrentar a estrada, o incógnito, a solidão onde começa a vida e onde surge a morte. Eu volto depois. Ou não.

Friday, September 20, 2013

a conta

Um prato cheio de sangue. O mapa de carne crua num planeta de louça branca. Os dentes que dilaceram a fúria de estar com uma garota aprisionada na tela do celular. A valsa solitária do garçom. O tilintar oco submerso de talheres mal afiados. O uivo silencioso do animal morto com uma toalha no colo. Alimento com espinhas que matam o que alimenta.

Monday, September 16, 2013

caixa de sapatos #31

me interesso em saber o número de vítimas de uma tragédia. gosto de ver os familiares de pijamas e suas fotografias em alta resolução com olhos vermelhos e suas bocarras murchas e suas obturações. prefiro celebridades que ganham peso após embucharem. gosto de saber sobre acidentes de trânsito fatais. gosto de ver as fotos. rebeliões em presídios com reféns decapitados e colchões em chamas. gosto do incêndio e suas labaredas. o cheiro de cabelo queimado. acidentes de avião. gosto de ver notícias sobre pessoas sendo enxotadas de suas casas na espanha. tiroteios em escolas primàrias. me lambuso de prazer quando algum atleta mata sua namorada por ciúme. não me reconheço de tanta alegria com atropelamentos e suicídios. velhos esquecidos em bancos de praça. rio dos alertas do dr. dráuzio varela. assisto assassinatos. programas evangélicos com pastores milionários rindo e gesticulando para um bando de fiéis que pedem para levar em seus roscofes sagrados. chacinas em bodegas de periferia. blitz efetivas. coletivos carbonizados. fartura na cracolândia. violência e misérias. doenças venéreas. rios entupidos de merda e produtos químicos e pneus. visualizo sua mãe de quatro cheia de varizes e manias de excesso de realidade e ansiolíticos e fico de pau duro. ataques do coração durante anestesias em clínicas de lipoaspiração. nada me diverte mais do que ver os outros se foderem com tacos e crânios esmagados em estádios de futebol. cachorros de celebridades mortos. famílias desestruturadas. deslizamentos e enchentes. falta de vagas em hospitais. comerciais da tim e da brahma com gente bonita e depilada definitivamente. tombos e estabacos. espancamentos desleais e tortura. agressões homofóbicas na avenida paulista. travestis desfigurados e prostitutas infectadas espalhando vírus. claudia leite. ciclistas de capacete impressos no asfalto. silicones que explodem em silêncio. políticos de terno no verão achando tudo normal. gente legal que não dá certo. germes e berrugas protuberantes. pombos aleijados. cheiro de mijo nas ruas. aguardo ansiosamente por acidentes. sangue fresco. venero a morte. gosto de me imaginar flutuando nela de braços abertos num córrego canalizado. a glória de hoje é assistir à derrota. que se foda bastante e que minhas palmas soem como uma tempestade de granizo num telhado de amianto.

Tuesday, September 03, 2013

any way you choose me we won't be long

"Você sabia como eu me sentia quando fechava a porta do quarto num domingo qualquer. Quando o tempo escorria e girava na sala com o televisor ligado no programa razoável da emissora mor. Enquanto vocês riam do apresentador e suas tiradas. Você sabia como eu me suportava. Eu sou você com outro nome. Até os 14 anos eu me esforcei para ser a pessoa mais desprezível daquele terreno baldio. Ali ninguém me viu dormir encolhido como um pacote numa sombra. Mas você percebia através da sua indiferença que eu morria devagar. Descobri substâncias que acalentavam a minha fúria de existir em lugares onde não deveria estar. Talvez isso fosse um alívio pra você. Eu e meu chiado asmático desafinado. Meu grito inflamável entupido através da noite, esperando pelo seu colo na escada de concreto de escola estadual Eu nunca dormi, mãe. Sempre esperei teu amparo. Eu vi você ir embora. Sempre tive medo e vergonha de admitir ser o que eu sou. O cansaço sempre foi meu estado natural. Meu vício. Uma maneira de me gastar mais depressa para desaparecer antes. Sozinho em tardes secas. Todas as vezes que eu praguejava seu nome em manhãs cinzas eu gritava de pavor. Todas as vezes que eu fugia e procurava amigos que não existiam era uma forma de tentar te encontrar. O desespero pueril de apagar antes de explodir. Eu andava por aí apalpando muros rebocados. Eu sabia no que você pensava: em nada. Éramos tão estranhos. Mas você se vingava. Eu não te conheço apesar de ter sido cuspido do seu ventre. Fui esfregado no cascalho apenas para escutar à verdade de ter sido um acidente que insistia em continuar acontecendo. Eu ainda posso sentir o cheiro daquelas manhãs. Quando ficar na fila da matrícula era algo para ser lamentado em almoços e almoços e almoços. Como deve ter sido difícil. Conceber algo que deveria ter sido expectorado. Uma farsa. Placenta de plástico. Uma charada. Uma vergonha. O garoto nada. Que roubava da sua própria carteira. Que atrapalhava o sossego de quem chegava cansado em casa. De quem chegava em casa. Eu sentia muito medo de quem chegava em casa e vinha em minha direção. Ao contrário dos seus cachorros dóceis, eu não fazia festa quando você chegava em casa. Eu esperava seu vacilo para te roubar. Eu sou um monte de raiva. Um sujeito que usa o amor como se assoasse o nariz num guardanapo transparente de televisão de boteco. Que se apega ao desespero apenas para estilhaçar tudo no final. Eu sou a pessoa que odeia fazer as coisas que gosta. Eu sou a coisa. Que nasceu e cresceu e agora derrete e se olha no reflexo das coisas brilham e se lembra de tudo. Da ausência. Eu sinto esse frio de quem rouba e escapa e que fica drogado e cheio de febre sexual e já não tem mais medo e que não vai mais voltar pra casa e que vai morrer sozinho com os dentes intactos" Lou Barry

Saturday, December 22, 2012

por mais que eu fuja das sombras dos prédios, tudo termina num beco sem saída. numa nuvem escurecida pela nostalgia. na cidade que tem o poder de esmagar um homem que cultiva o ontem, salto no abismo. não me lembro onde tudo isso começou. As mentiras brutais. meus amigos nunca me abandonaram. nem mesmo quando desabei. tem vez que a gente se coíbe. Esse lado obscuro que apenas àqueles que enxergam os ninhos do embuste percebem. o lado perdido. O engano da massa ruminante ávida por sangue coalhado. quando minha origem é um grupo de suicidas massacrados que flutuam de braços abertos num córrego canalizado que escorre rumo à periferia da alma. prefiro a companhia desses fantasmas à falta de sonhos. o fim de tarde sangrento e o trafego nas avenidas principais. o céu nublado torna-se noite. e seguimos. fluímos. em sombras melancólicas. a triste beleza. a calamidade eterna como opção. o nojo da sociabilidade. ando melancólico. vago pelas ruas sozinho numa fusão sofisticada de belos sentimentos contraditórios e profundos. idolatro minha dor. uma mágoa doce. tento prolongá-la. demoro dentro dela. respiro melancolia nesses dias de furacão. e cavo em silêncio o abismo que existe entre mim e a pessoa amada.

Saturday, December 08, 2012

Nessa síndrome de escapismo aceleramos pelas rodovias federais durante 21 horas seguidas. Eu não fazia idéia. Eram cânions. Era o norte. Foda-se. Era ali. Seus olhos em minha cabeça. O melhor hotel barato. Era o posto de gasolina amigável com cerveja gelada. Era calor pra caralho e você bêbada rindo de longe. Depois era onde entrei com o carro no estacionamento de cascalho fino de um motel esmagado pelas intempéries do tempo. Eu tinha uns pensamentos ruins. Meus olhos latejavam dentro da minha caveira e meus dedos estavam rijos de tanto pressionar o arco do volante. Já era noite havia muito tempo. A chuva martelava o teto do carro. Eu tinha uns pensamentos que queria dividir com você. Eu parei o carro e você abriu a porta para mandar um jorro fino de vomito no chão. Fiquei assistindo as gotas da chuva atingindo os cabelos desgrenhados da sua nuca. Você reclamou da náusea sacudindo as mãos como uma mímica. Bebeu mais um gole da garrafa. Na recepção, dois sujeitos assistiam à programação noturna dos canais abertos da televisão. Um deles, prateado, pareceu não nos notar, mas o segundo se levantou e veio nos cumprimentar. Era um senhor magro de sotaque forte. Imaginei que devíamos estar perto do Pará. Queremos um quarto. Precisamos de um quarto e de um chuveiro, você disse. Completamente linda e transtornada. Podem escolher, tem ninguém aqui faz mais de duas semanas, disse ele. Nem amigos passam por aqui mais, completou. Escolhemos um apartamento encardido no fim do corredor do segundo andar. Parecia longe. Talvez o mais distante da recepção. Parecia nosso. Pagamos quatro dias, à vista. Não perguntei sobre o café da manhã. A janela emoldurava a rodovia. O letreiro de neon projetava sua luz azulada. A cama de madeira estava feita. A colcha de retalhos cobria um colchão magro. A televisão de 14 polegadas pendia no suporte ao lado da porta do banheiro. Uma mesa e uma cadeira estavam dispostas próximas à janela. Você correu para o banheiro e fechou a porta. Eu acendi um cigarro e fiquei assistindo a chuva cair no estacionamento. Pelo cone formado pela luz do poste eu podia ver as gotas cintilando como laminas de cristal. Liguei a TV e tirei meus sapatos encharcados. Nessa sua síndrome de escapismo você sequer notava minha presença. Deitei minha cabeça no travesseiro e dormi. Eu queria sonhar com Éden, um lugar onde os rios não fossem de asfalto. Onde o amor nunca morre. Onde o peito não explode. Quando acordei tudo estava vazio. Senti falta de casa. Vi seu corpo esparramado no canto da cama. O letreiro de neon piscando sobre suas veias aniquiladas. Sua boca semiaberta com um cigarro pendendo pregado com baba seca no lábio inferior. Peguei seu braço esquerdo e percebi sua mão retorcida pelo rigor mortis. Seus olhos estavam abertos e encaravam a cabeceira. Eu os fechei delicadamente. Apaguei o abajur. Me levantei e recolhi todos os apetrechos espalhados pelo chão. Conferi o que restou. Era suficiente até uma próxima parada. Eu falando sozinho. Enrolei tudo numa camisa velha que coloquei na mochila. Abri a janela e uma lufada de ar fresco entrou. Não fazia idéia de que horas eram, mas deduzi pelo vespertino. O sol brilhava em partículas, em ondas. Muitos pássaros voejavam ao redor de uma figueira frondosa como a longa cabeleira de uma mulher afogada. Debaixo do chuveiro talvez eu tenha chorado, não posso garantir. Lembro de ter pressionado minha cabeça com as duas mãos num grito mudo. O seu corpo enrijecido na cama. Os músculos pareciam mais soltos. O nó da existência desatado lentamente. Beijei seus lábios secos, a boca, seus seios. Senti vontade de abraçá-la, de fodê-la com toda raiva. Peguei as chaves ao lado cinzeiro de plástico derretido pelos cigarros esquecidos que transbordavam pelo criado-mudo. Da janela do segundo andar me apoiei de frente pra rodovia. Lancei meu corpo e aterrissei no cascalho. Meus sapatos esmerilhavam as pedras enquanto andava até o carro. Notei a TV acesa na recepção. Percebi a silhueta de dois homens no sofá. Entrei no carro e girei a chave. Saí de ré, suave, sem qualquer alarde. Minha síndrome de escapismo. Éden. Engatei a terceira numa curva acentuada. Nem percebi quando o motel sumiu no retrovisor. Eu não pensava em voltar para casa. A vida é uma puta.